quinta-feira, 7 de junho de 2012

Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Fernando Pessoa (Ricardo Reis, 12-6-1914)

A realidade pensada não é a dita mas a pensada

Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro, 1-10-1917)

Para Além Doutro Oceano de C[oelho] Pacheco

Num sentimento de febre de ser para além doutro oceano 
Houve posições dum viver mais claro e mais límpido 
E aparências duma cidade de seres 
Não irreais mas lívidos de impossibilidade, consagrados em pureza e em nudez 
Fui pórtico desta visão irrita e os sentimentos eram só o desejo de os ter 
A noção das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro  
Todos viviam na vida dos restantes 
E a maneira de sentir estava no modo de se viver 
Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho 
A nudez era um silêncio de formas sem modo de ser 
E houve pasmos de toda a realidade ser só isto 
Mas a vida era a vida e só era a vida


O meu pensamento muitas vezes trabalha silenciosamente
Com a mesma doçura duma máquina untada que se move sem fazer barulho
Sinto-me bem quando ela assim vai e ponho-me imóvel
Para não desmanchar o equilíbrio que me faz tê-lo desse modo 
Pressinto que é nesses momentos que o meu pensamento é claro 
Mas eu não o oiço e silencioso ele trabalha sempre de mansinho 
Como uma máquina untada movida por uma correia 
E não posso ouvir senão o deslizar sereno das peças que trabalham 
Eu lembro-me às vezes de que todas as outras pessoas devem sentir isto como eu
Mas dizem que lhes dói a cabeça ou sentem tonturas
Esta lembrança veio-me como me podia vir outra qualquer
Como por exemplo a de que eles não sentem esse deslizar
E não pensam em que o não sentem

Neste salão antigo em que as panóplias de armas cinzentas 
São a forma dum arcaboiço em que há sinais doutras eras
Passeio o meu olhar materializado e destaco de escondido nas armaduras,
Aquele segredo de alma que é a causa de eu viver
Se fito na panóplia o olhar mortificado em que há desejos de não ver
Toda a estrutura férrea desse arcaboiço que eu pressinto não sei por quê
Se apossa do meu senti-la como um clarão de lucidez
Há som no serem iguais dois elmos que me escutam
A sombra das lanças de ser nítida marca a indecisão das palavras
Dísticos de incerteza bailam incessantemente sobre mim 

Oiço já as coroações de heróis que hão de celebrar-me
E sobre este vício de sentir encontro-me nos mesmos espasmos
Da mesma poeira cinzenta das armas em que há sinais doutras eras

Quando entro numa sala grande e nua à hora do crepúsculo
E que tudo é silêncio ela tem para mim a estrutura duma alma
É vaga e poeirenta e os meus passos têm ecos estranhos
Como os que ecoam na minha alma quando eu ando
Por suas janelas tristes, entra a luz adormecida de lá de fora
E projeta na parede escura em frente as sombras e as penumbras
Uma sala grande e vazia é uma alma silenciosa 

E as correntes de ar que levantam pó são os pensamentos

Um rebanho de ovelhas, é uma coisa triste
Porque lhe não, devemos poder associar outras idéias que não sejam tristes
E porque assim é e só porque assim é porque é verdade
Que devemos associar idéias tristes a um rebanho de ovelhas
Por esta razão e só por esta razão é que as ovelhas são realmente tristes
Eu roubo por prazer quando me dão um objeto de valor
E eu dou em troca uns bocados de metal.  Esta idéia não é comum nem banal
Porque eu encaro-a de modo diferente e não há relação entre um metal e outro objeto
Se eu fosse comprar latão e desse alcachofras prendiam-me 
Eu gostava de ouvir qualquer pessoa expor e explicar 
O modo como se pode deixar de pensar em que se pensa que se faz uma coisa
E assim perderia o receio que tenho de que um dia venha a saber 
Que o pensar eu em coisas e no pensar não passa duma coisa material e perfeita

A posição dum corpo não é indiferente para o seu equilíbrio
E a esfera não é um corpo porque não tem forma
Se é assim e se todos ouvimos um som em qualquer posição
Infiro que ele não deve ser um corpo
Mas os que sabem por intuição que o som não é um corpo
Não seguiram o meu raciocínio e essa noção assim não lhes serve para nada
Quando me lembro que há pessoas que jogam as palavras para fazerem espírito
E se riem por isso e contam casos particulares da vida de cada um
Para assim se desenfastiarem e que acham graça aos palhaços de circo
E se incomodam por lhes cair uma nódoa de azeite no fato novo
Sinto-me feliz por haver tanta coisa que eu não compreendo 

Na arte de cada operário vejo toda uma geração a esbater-se
E por isso eu não compreendo arte nenhuma e vejo essa geração
O operário não vê na sua arte nada duma geração
E por isso ele é operário e conhece a sua arte

O meu físico é muitas vezes causa de eu me amargurar
Eu sei que sou uma coisa a porque não sou diferente de uma coisa qualquer
Sei que as outras coisas serão como eu e têm de pensar que eu sou uma coisa comum
Se portanto assim é eu não penso mas julgo que penso 
E esta maneira de me eu acondicionar é boa e alivia-me

Eu amo as alamedas de árvores sombrias e curvas
E ao caminhar em alamedas extensas que o meu olhar afeiçoa 
Alamedas que o meu olhar afeiçoa sem que eu saiba como 
Elas são portas que se abrem no meu ser incoerente 
E são sempre alamedas que eu sinto quando o pasmo de ser assim me distingue

Muitas vezes oculto-me sensações e gostos
E então elas variam e estão em acordo com as dos outros 
Mas eu não as sinto e também não sei que me engano

Sentir a poesia é a maneira figurada de se viver
Eu não sinto a poesia não porque não saiba o que ela é 
Mas porque não posso viver figuradamente
E se o conseguisse tinha de seguir outro modo de me acondicionar
A condição da poesia é ignorar como se pode senti-la
Há coisas belas que são belas em si
Mas a beleza íntima dos sentimentos espelha-se nas coisas 
E se elas são belas nós não as sentimos

Na seqüência dos passos não posso ver mais que a seqüência dos passos
E eles seguem-se como se eu os visse seguirem-se realmente 
Do fato deles serem tão iguais a si mesmo
E de não haver uma seqüência de passos que o não seja
É que eu vejo a necessidade de nos não iludirmos sobre o sentido claro das coisas
Assim havíamos de julgar que um corpo inanimado sente e vê diferentemente de nós
E esta noção pode ser admissível demais seria incômoda e fútil

Se quando pensamos podemos deixar de fazer movimento e de falar 
Para que é preciso supor que as coisas não pensam
Se esta maneira de as ver é incoerente e fácil para o espírito?  

Devemos supor e este é o verdadeiro caminho
Que nós pensamos pelo fato de o podermos fazer sem nos mexermos nem falar
Como fazem as coisas inanimadas

Quando me sinto isolado a necessidade de ser uma pessoa qualquer surge
E redemoinha em volta de mim em espirais oscilantes 
Esta maneira de dizer não é figurada
E eu sei que ela redemoinha em volta de mim como uma borboleta em volta de uma luz
Vejo-lhe sintomas de cansaço e horrorizo-me quando julgo que ela vai cair
Mas de nunca suceder isso acontece eu estar às vezes isolado

Há pessoas a quem o arranhar das paredes impressiona 
E outras que se não impressionam
Mas o arranhar das paredes é sempre igual
E a diferença vem das pessoas.  Mas se há diferença entre este sentir
Haverá diferença pessoal no sentir das outras coisas 
E quando todos, pensem igual duma coisa é porque ela é diferente para cada um

A memória é a faculdade de saber que havemos de viver
Portanto os amnésicos não podem saber que vivem 

Mas eles são como eu infelizes e eu sei que estou vivendo e hei de viver
Um objeto que se atinge um susto que se tem
São tudo maneiras de se viver para os outros
Eu desejaria viver ou ser adentro de mim como vivem ou são os espaços

Depois de comer quantas pessoas se sentam em cadeiras de balanço
Ajeitam-se nas almofadas fecham os olhos e deixam-se viver 
Não há luta entre o viver e a vontade de não viver 
Ou então — e isto é horroroso para mim — se há realmente essa luta
Com um tiro de pistola matam-se tendo primeiro, escrito cartas 
Deixar-se viver é absurdo como um falar em segredo

Os artistas de circo são superiores a mim
Porque sabem fazer pinos e saltos mortais a cavalo
E dão os saltos só por os dar 

E se eu desse um salto havia de querer saber por que o dava
E não os dando entristecia-me 

Eles não são capazes de dizer como é que os dão
Mas saltam como só eles sabem saltar
E nunca perguntaram a si mesmos se realmente saltam
Porque eu quando vejo alguma coisa
Não sei se ela se dá ou não nem posso sabê-lo
Só sei que para mim é como se ela acontecesse porque a vejo
Mas não posso saber se vejo coisas que não aconteçam 

E se as visse também podia supor que elas sucediam

Uma ave é sempre bela porque é uma ave
E as aves são sempre belas
Mas uma ave sem penas é repugnante como um sapo
E um montão de penas não é belo
Deste fato tão nu em si não sei induzir nada
E sinto que deve haver nele alguma grande verdade
O que eu penso duma vez nunca pode ser igual ao que eu penso doutra vez
E deste modo eu vivo para que os outros saibam que vivem

Às vezes ao pé dum muro vejo um pedreiro a trabalhar
E a sua maneira de existir e de poder ser visto é sempre diferente do que julgo
Ele trabalha e há um incitamento dirigido que move os seus braços
Como é que acontece estar ele trabalhando por uma vontade que tem disso
E eu não esteja trabalhando nem tenha vontade disso
E não possa ter compreensão dessa possibilidade? 

Ele não sabe nada destas verdades mas não é mais feliz do que eu com certeza 
Em áleas doutros parques pisando as folhas secas
Sonho às vezes que sou para mim e que tenho de viver
Mas nunca passa este ver-me de ilusão
Porque me vejo afinal nas áleas desse parque
Pisando as folhas secas que me escutam
Se pudesse ao menos ouvir estalar as folhas secas
Sem ser eu que as pisasse ou sem que elas me vissem
Mas as folhas secas redemoinham e eu tenho de as pisar
Se ao menos nesta travessia eu tivesse um outro como toda a gente

Uma obra-prima não passa de ser uma obra qualquer
E portanto uma obra qualquer é uma obra-prima
Se este raciocínio é falso não é falsa a vontade
Que eu tenho de que ele seja de fato verdadeiro
E para os usos do meu pensar isso me basta

Que importa que uma idéia seja obscura se ela é uma idéia 
E uma idéia não pode ser menos bela do que outra
Porque não pode haver diferença entre duas idéias
E isto é assim porque eu vejo que isto tem de ser assim
Um cérebro a sonhar é o mesmo que pensa
E os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos
Como outros quaisquer.  Se vejo alguém olhando-me
Começo sem querer a pensar como toda a gente
E é tão doloroso isso como se me marcassem a alma a ferro em brasa
Mas como posso eu saber se é doloroso marcar a alma a ferro em brasa
Se um ferro em brasa é uma idéia que eu não compreendo

O descaminho que levaram as minhas virtudes comove-me
Compunge-me sentir que posso notar se quiser a falta delas
Eu gostava de ter as minhas virtudes gostosas que me preenchessem
Mas só para poder gozar e possuí-las e serem minhas essas virtudes
Há pessoas que dizem sentir o coração despedaçado 
Mas não entrevistam sequer o que seria de bom
Sentir despedaçarem-nos o coração
Isso é uma coisa que se não sente nunca
Mas não é essa a razão por que seria uma felicidade sentir o coração despedaçado

Num salão nobre de penumbra em que há azulejos
Em que há azulejos azuis colorindo as paredes
E de que o chão é escuro e pintado e com passadeiras de juta
Dou entrada às vezes coerente por demais
Sou naquele salão como qualquer pessoa
Mas o sobrado é côncavo e as portas não acertam
A tristeza das bandeiras crucificadas nos entrevãos das portas
É uma tristeza feita de silêncio desnivelada
Pelas janelas reticuladas entre a luz quando é dia,
Que entorpece os vidros das bandeiras e recolhe a recantos montões de negrume
Correm às vezes frios ventosos pelos extensos corredores
Mas há cheiro a vernizes velhos e estalados nos recantos dos salões
E tudo é dolorido neste solar de velharias
Alegra-me às vezes passageiramente pensar que hei de morrer
E serei encerrado num caixão de pau cheirando a resina
O meu corpo há de derreter-se para líquidos espantosos
As feições desfar-se-ão em vários podres coloridos
E irá aparecendo a caveira ridícula por baixo
Muito suja e muito cansada a pestanejar 

C. Pacheco

Poema do Menino Jesus

(...)


A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.


Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.


Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.


Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.


Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Eu sou do tamanho do que vejo

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VII" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Psssagem das Horas

    Trago dentro do meu coração,
    Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
    Todos os lugares onde estive,
    Todos os portos a que cheguei,
    Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
    Ou de tombadilhos, sonhando,
    E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

    A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,
    O coral das Maldivas em passagem cálida,
    Macau à uma hora da noite... Acordo de repente...
    Yat-lô--ô-ôôô-ô-ô-ô-ô-ô-ô...Ghi-...
    E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade...
    A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol...
    Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...
    Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...
    Tempestades em torno ao Guardafui...
    E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...
    E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...
    Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
    Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
    Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
    Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
    E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.

    A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
    Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
    Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
    Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
    Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
    Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
    Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
    Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
    Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

    Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
    Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
    Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
    Consangüinidade com o mistério das coisas, choque

    Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
    Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.


    Seja o que for, era melhor não ter nascido,
    Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
    A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
    A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
    Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
    E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
    Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
    E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
    Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.


    Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
    É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
    Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
    Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
    Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

    Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,
    Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.
    Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.
    Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
    Tão decadente, tão decadente, tão decadente...

    Só estou bem quando ouço música, e nem então.
    Jardins do século dezoito antes de 89,
    Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?

    Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,
    A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.

    Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
    Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
    Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
    Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
    Minha quinta na província,
    Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
    Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
    E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
    Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...

    Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
    Só humanitariamente é que se pode viver.
    Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
    Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
    Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!


    Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
    Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
    Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
    E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse. 

    Amei e odiei como toda gente,
    Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
    E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.


    Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.
    Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,
    Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.
    Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,
    Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,
    Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,
    A direção constantemente abandonada do nosso destino,
    A nossa incerteza pagã sem alegria,
    A nossa fraqueza cristã sem fé,
    O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,
    A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,
    A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...

    Não sei sentir, não sei ser humano, conviver
    De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.
    Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,
    Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,
    Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,
    Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,
    Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.


    Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...
    Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,
    Tu que não existes, que és só a ausência da luz,
    Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,
    Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,
    Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,
    Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,
    E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...
    'Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,
    Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,
    Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,
    Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...
    Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,
    Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,
    Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...

    Sentir tudo de todas as maneiras,
    Viver tudo de todos os lados,
    Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
    Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
    Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.


    Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,
    Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,
    Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,
    Seja uma flor ou uma idéia abstrata,
    Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.
    E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.
    São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,
    E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,
    Porque ser inferior é diferente de ser superior,
    E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.
    Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,
    E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,
    E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,
    E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.
    Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,
    Basta que ela exista para que tenha razão de ser. 

    Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,
    (No mesmo abraço comovido)
    O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,
    O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,
    E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,
    O ladrão de estradas, o salteador dos mares,
    O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —
    Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.

    Beijo na boca todas as prostitutas,
    Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
    A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
    E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
    Tudo é a razão de ser da minha vida.

    Cometi todos os crimes,
    Vivi dentro de todos os crimes
    (Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
    Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
    E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

    Multipliquei-me, para me sentir,
    Para me sentir, precisei sentir tudo,
    Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
    Despi-me, entreguei-rne,
    E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.


    Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
    E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

    Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
    Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
    Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
    Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
    Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
    E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).
    Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

    (Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
    Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)

    Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
    Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
    Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
    A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
    Os seus half-holidays inesperados...
    Mary, eu sou infeliz...
    Freddie, eu sou infeliz...
    Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
    Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
    Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
    Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
    Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
    Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

    Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
    E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...
    Meu coração tribunal, meu coração mercado,
    Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
    Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
    Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
    Estalagem, calabouço número qualquer cousa
    (Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
    Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
    Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
    Meu coração postigo,
    Meu coração encomenda,
    Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
    Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
    Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

    Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,
    Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
    Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
    Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
    E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

    (Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,
    Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,
    Com as cabeças femininas coiffées de lin
    E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...
    Aquela que é o anel deixado em cima da cômoda,
    E a fita entalada com o fechar da gaveta,
    Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,
    Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...

    Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,
    Definitivamente para todo o resto do Universo,
    E que os carros me passem por cima.)

    Fui para a cama com todos os sentimentos,
    Fui souteneur de todas ás emoções,
    Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,
    Troquei olhares com todos os motivos de agir,
    Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,
    Febre imensa das horas!
    Angústia da forja das emoções!

    Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,
    A cadela a uivar de noite,
    O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,
    O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,
    A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,
    Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,
    Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,
    Orgia intelectual de sentir a vida!


    Obter tudo por suficiência divina —
    As vésperas, os consentimentos, os avisos,
    As cousas belas da vida —
    O talento, a virtude, a impunidade,
    A tendência para acompanhar os outros a casa,
    A situação de passageiro,
    A conveniência em embarcar já para ter lugar,
    E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, urna frase,
    E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.


    Poder rir, rir, rir despejadamente,
    Rir como um copo entornado,
    Absolutamente doido só por sentir,
    Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
    Ferido na boca por morder coisas,
    Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,
    E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.


    Sentir tudo de todas as maneiras,
    Ter todas as opiniões,
    Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
    Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,
    E amar as coisas como Deus.


    Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,
    Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia
    Que a dor real das crianças em quem batem
    (Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —
    E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)

    Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,
    Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,
    Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque
    E faz pena saber que há vida que viver amanhã.
    Eu, enfim, literalmente eu,
    E eu metaforicamente também,
    Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso
    As leis irrepreensíveis da Vida,
    Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,
    O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,
    Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo
    E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...
    Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,
    Sem personalidade com valor declarado,
    Eu, o investigador solene das coisas fúteis,
    Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,
    E que acho que não faz mal não ligar importâricia à pátria
    Porqtie não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz
    Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,


    Como uma frase escrita por um doente no livro da rapariga que encontrou no terraço,
    Ou uma partida de xadrez no convés dum transatlântico,
    Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,
    Eu, o policia que a olha, parado para trás na álea,
    Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.
    Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina
    Coada através das árvores do jardim público,
    Eu, o que os espera a todos em casa,
    Eu, o que eles encontram na rua,
    Eu, o que eles não sabem de si próprios,
    Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,
    Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,
    O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,
    O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,
    A cicatriz do sargento mal encarado,
    O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,
    A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,
    E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...
    Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,
    Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,
    Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,
    O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,
    O sacana do José que prometeu vir e não veio
    E a gente tinha uma partida para lhe fazer...
    Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo...
    Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,
    E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...
    Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,
    A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,

    Sem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de tudo isto,
    E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa...

    Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,
    E uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim,
    Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural,
    Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me,
    Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida...
    Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas,
    O baú das iniciais gastas,
    A entonação das vozes que nunca ouviremos mais -
    Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo
    E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.
    A Brígida prima da minha tia,
    O general em que elas falavam - general quando elas eram pequenas,
    E a vida era guerra civil a todas as esquinas...
    Vive le mélodrame oú Margot a pleuré!
    Caem as folhas secas no chão irregularmente,
    Mas o fato é que sempre é outono no outono,
    E o inverno vem depois fatalmente,
    há só um caminho para a vida, que é a vida...
    Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,
    Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,
    E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão
    Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.

    Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
    E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.

    Não me subordino senão por atavisnio,
    E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

    Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades
    Acessíveis à imaginação
    Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
    Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
    Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

    No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
    Vou ao lado dela sem ela saber.
    No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
    Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
    Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me,
    Não há modo de eu não estar em toda a parte.
    O meu privilégio é tudo
    (Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).


    Assisto a tudo e definitivamente.
    Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
    Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,
    Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,
    Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinqüenta
    Que não seja para mim por uma galantaria deposta.

    Fui educado pela Imaginação,
    Viajei pela mão dela sempre,
    Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
    E todos os dias têm essa janela por diante,
    E todas as horas parecem minhas dessa maneira.


    Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,
    Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,
    Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,
    Galga, cavalo eléctron-íon, sistema solar resumido
    Por dentro da ação dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.
    Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca,
    Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,
    Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,
    E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.

    Ho-ho-ho-ho-ho!...
    Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo
    Adiante da própria idéia veloz do corpo projetado,
    Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,
    He-la-ho-ho ... Helahoho ...

    Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...
    A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe
    As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel,
    E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.

    Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,
    Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,
    Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha
    De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...
    Ho ----

    Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!
    Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!
    Ave, salve, viva a grande máquina universo!
    Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!
    Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, idéias abstratas,
    A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,
    A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,
    O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,

    Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,
    Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,
    Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor


    Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel,
    Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade,
    Máquina universal movida por correias de todos os momentos!

    Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.
    Todas as auroras raiam no mesmo lugar:
    Infinito...
    Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,
    Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,
    E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar
    Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...

    Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,
    Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna,
    Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente
    Rola ...

    Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,
    E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,
    Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros
    Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,
    Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,
    Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato,
    Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,
    A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...


    Ah, não estar parado nem a andar,
    Não estar deitado nem de pé,
    Nem acordado nem a dormir,
    Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
    Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa,
    Saber onde estar para poder estar em toda a parte,
    Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ...


    Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho

    Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,
    Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,
    Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...

    Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,
    Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,
    Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,
    Numa velocidade crescente, insistente, violenta,
    Hup-la hup-la hup-la hup-la ...

    Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,
    Cavalgada energética por dentro de todas as energias,
    Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,
    Clarim claro da manhã ao fundo
    Do semicírculo frio do horizonte,
    Tênue clarim longínquo como bandeiras incertas
    Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...

    Clarim trêmulo, poeira parada, onde a noite cessa,
    Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade ...

    Carro que chia limpidamente, vapor que apita,
    Guindaste que começa a girar no meu ouvido,
    Tosse seca, nova do que sai de casa,
    Leve arrepio matutino na alegria de viver,
    Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,
    Costureira fadada para pior que a manhã que sente,
    Operário tísico desfeito para feliz nesta hora
    Inevitavelmente vital,
    Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,
    Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas
    Abrem aqu; e ali os olhos cortinados a branco...

    Toda a madrugada é uma colina que oscila,
    ...................................................................
    ... e caminha tudo

    Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras
    E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge

    Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —
    Sol dos vértices e nos... da minha visão estriada,
    Do rodopio parado da minha retentiva seca,
    Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.

    Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,
    Aros caixotes trolley loja rua i,itrines saia olhos
    Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua
    Passeio lojistas "perdão" rua
    Rua a passear por mim a passear pela rua por mim
    Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá
    A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,
    O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua
    O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua

    Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim
    Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua
    Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés
    Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços
    Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,
    Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.

    Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.
    Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.
    Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!
    Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!
    Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te
    Por todos os precipícios abaixo
    E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!


    À moi, todos os objetos projéteis!
    À moi, todos os objetos direções!
    À moi, todos os objetos invisíveis de velozes!
    Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!
    Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!
    A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!


    Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,
    Velocidade entra por todas as idéias dentro,
    Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,
    Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,
    Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,
    Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
    Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,
    Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,
    Senhor supremo da hora européia, metálico a cio.
    Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!

    ...............................................................
    ...............................................................
    ...............................................................
    ...............................................................

    Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,
    Declina dentro de mim o sol no alto do céu.

    Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.
    Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?

    Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,
    Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,
    Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,
    Calcar, calcar, calcar até não sentir.
    Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,
    Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.


    Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,
    Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,
    Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,
    Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.

    Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...

    Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...

    Fernando Pessoa (Álvaro de Campos, 22-5-1916)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Nosso tempo

I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
II
Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.
Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.
Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.
A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.
III
E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?
Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco, pessoas e coisas enigmáticas, contai;

capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.
IV
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.
É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.
No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.
V
Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.
Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.
Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.
Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.
VI
Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.

Salva-se a honra
e a herança do gado.
VII
Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.
VIII
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.
Carlos Drummond de Andrade

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.


A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.


Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.



Vinicius de Moraes

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.


Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Fernando Pessoa

D. Sebastião, rei de Portugal

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou o meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa

Existir é ser possível haver ser

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério, 
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade, 
Perante este horrível ser que é haver ser, 
Perante este abismo de existir um abismo, 
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo, 
Ser um abismo por simplesmente ser, 
Por poder ser, 
Por haver ser! 
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem, 
Tudo o que os homens dizem, 
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles, 
Se empequena! 
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa — 
Numa só coisa tremenda e negra e impossível, 
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino 
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino, 
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres, 
Aquilo que subsiste através de todas as formas, 
De todas as vidas, abstratas ou concretas, 
Eternas ou contingentes, 
Verdadeiras ou falsas! 
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora, 
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo, 
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa! 


Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor, 
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim, 
Com a substância essencial do meu ser abstrato 
Que sufoco de incompreensível, 
Que me esmago de ultratranscendente, 
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser, 
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir! 


Cárcere do Ser, não há libertação de ti? 
Cárcere de pensar, não há libertação de ti? 


Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus! 
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos, 
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie, 
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra, 
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite. 
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte, 
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males, 
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos, 
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte? 
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro? 
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo, 
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério? 
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada. 
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe! 
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais, 
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência, 
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência, 
Porque é preciso existir para se criar tudo, 
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser, 
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses. 


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa